Não é fácil ser escritor no Brasil, para todos aqueles que estão tentando começar, é muito difícil lançar o primeiro livro. Não querendo desanimar ninguém, mas se você não tem uma renda boa, se você tem que ralar pra poder viver, as coisas vão ser bem complicadas.

Primeiro, suponhamos que você trabalhe 8 horas por dia, 5 dias por semana, tenha 1 hora de almoço e gaste 1 hora pra ir pro trabalho e 1 hora pra voltar pra casa. Só ai você já está não escrevendo por 11 horas a cada dia da semana, somando o tempo que leva tomando banho, arrumando suas coisas e jantando ou lanchando em casa, mais 1 hora, dormindo 5 horas por dia, 17 horas não escrevendo até agora por dia. Bom, te sobram 7 horas por dia pra escrever, mas você precisa se concentrar pra escrever, entrar no clima da estória ou do poema, por que a inspiração é algo maravilhoso, mas ela não vem sempre que você quer e mesmo quando vem, ela se gasta com alguns minutos.

Você escreve, lê, apaga, escreve de novo, lê de novo, corrige aquela frase que ficou estranha, talvez o nome do personagem pudesse ser outro, mas qual????? Nisso, 1 folha pode levar até 1 hora pra ficar pronta, talvez menos, talvez mais. Se você não mora sozinho ou isolado do resto da civilização, seu vizinho que adora o Luan Santana talvez te atrapalhe a escrever ouvindo música alto. Alto o bastante pra te incomodar, mas não o bastante pra ser usado como desculpa em um assassinato. As horas voam quando você escreve, talvez você gaste 3 horas em meia folha, e eu acho válido, melhor meia folha perfeita que 10 folhas chatas e massantes.

Agora, ainda supondo que você tenha a rotina de cima, você tem sábado e domingo pra escrever, normalmente o dia que as pessoas não acham que você deve ficar em casa na frente do computador. Mesmo que você não saia e não receba visitas, o que é raro, você tem que fazer compras, lavar roupa, arrumar casa, preparar comida, dar banho no cachorro, trocar água do aquário, trocar a maçaneta da porta que estragou, e bom, se você estuda e tem trabalho da faculdade, lá se vão suas horas pra escrever.

Agora, vamos supor que você finalmente conseguiu, terminou seu romance de 450 páginas, e é isso ai, está perfeito, as pessoas vão adorar… Claro, você precisa lançar ele antes de elas adorarem, mas como?

Se você trabalha pra pagar suas contas, então lançar um livro independente pode ser algo fora dos seus padrões de vida. Você consegue editoras que fazem o trabalho de impressão a 7 centavos a página, mais 2 reais a capa, cada livro sai a R$ 33,50… Por um livro de alguém que ninguém conhece… Acho que não vai conseguir vender, principalmente por precisar investir em divulgação.

Então, mande pra uma editora e feche um contrato, certo?

Primeiro, você tem que achar uma editora que lance livros do mesmo gênero que o seu, se eles aceitarem arquivos digitais, ótimo, mande por e-mail, se não você vai ter que imprimir e mandar pelo correio. Enquanto eles avaliam seu original, você tem que esperar, talvez 3 semanas, talvez 6 meses por uma resposta, enquanto isso nada de se comprometer com outra editora, então você continua no seu trabalho e espera a resposta.

Se for “não”, você pode se desanimar e desistir por uns tempos, é normal, empacar 6 meses pra ouvir “não” é um chute no saco.

Se for “sim” legal… Legal?

Bom, eles vão querer mudar umas coisas, lógico que eles vão dizer que só se você concordar, então até chegar nessa parte, continua o processo, você não precisa se preocupar com a edição e diagramação, nem com a arte da capa, na verdade você nem vai opinar na arte da capa. Você não precisa se preocupar com a divulgação, nem com nada, talvez você não precise nem se preocupar com as correções, talvez eles te peçam pra fazer, talvez eles tenham “profissionais capacitados” pra corrigir algumas partes que se encaixam melhor no contexto e no mercado.

O preço do livro pode cair, graças a eles pra R$ 19,90, o que é bom, mais acessível e com divulgação pode ter uma boa venda, quanto você ganha?

10% em cada livro, o que dá ai R$ 1,99 em cada um, com sorte e boa divulgação, uma venda de 5 mil livros você ganha R$ 9.950,00, nada mau hein? Mas, geralmente tem um “mas”… Mas pode ser que eles queriam que você se comprometa com uma quantidade de livros, vamos dizer que pra começar, eles vão lançar 500 cópias, se vender tudo, eles lançam mais, dessas 500 cópias, você pode ter que se comprometer com 200, bom, funciona assim, você compra as 200 cópias por um preço menor, digamos R$ 14,00 e pode vender a R$19,90, então você vai ter um lucro de R$ 5,90 em cada livro, maior do que o preço de capa, mas vai ter investido R$ 2.800,00 sem garantia de que vai vender nenhum deles pra poder ter R$ 1.180,00 de lucro, mais o valor da sua parte nos 300 deles…

Bom, ai é que está, se você passar pela primeira edição das 500 cópias, não precisa se comprometer em comprar mais livros, mas até então você tem que tirar ai do seu bolso quase 3 mil reais, você acha que compensa?

Se sua renda permitir, compensa, mas eu recomendaria lançar independente um livro menor, com umas 50 páginas, com contos pequenos e vender, sua margem de lucro vai ser baixa, mas seus gastos também, você pode usar isso como portfólio pra mandar pra uma editora, se eles gostarem pode facilitar em um contrato.

Agora, você não pode esquecer que se você está fazendo isso enquanto trabalha em outro emprego, a média de escrever e preparar um livro pode aumentar de 3 meses pra 2 anos. É realmente desencorajador, mas se é o que quer, encare como um desafio e vença. O que não pode é desistir das coisas que você ama.

Você já deve ter visto isso em muitos lugares sobre tecnicas para escrever melhor, eles sempre dizem pra ler mais.

E está certo, você tem que ler mesmo, mas mais que isso tem que entender por que você deve ler.

Você deve ler, por que é assim que vai entender que tipo de narrativa gosta, que tipo de escrita gosta, mais descritivas e detalhadas, mais rápidas e fluentes deixando a ação tão rápida que você pode imaginá-la em tempo real a medida que avança palavra por palavra. Talvez você acabe gostando de textos mais poeticos e cheios de analogias ou talvez de textos mais secos e presos a realidade das coisas.

Você deve ler, por que é assim que você aprende a escrever. Você toma consciência do que te agrada, você aprende quais as formas te apaixonaram e aprende quais caminhos seguir e quais caminhos você deve criar, por que o mundo da escrita não é um mundo estático e imóvel, é um mundo mágico onde tudo é possível, às vezes improvável como diria o Gato a Alice, mas não há nada impossível.

Mas já falaram muito sobre ler. Essa era apenas a introdução do texto, o que eu quero falar mesmo é sonhe, sonhe muito, se apegue a ideias incríveis e creia nelas, há um enorme universo em expansão na vida real e infinitos universos em expansão na literatura, há muitos Deuses, Demônios, anjos, orcs, cavaleiros, reis, rainhas, guerreiros zumbis da tasmânia e pequenos ninhas mutantes de Júpiter esperando pra serem criados. Há um mundo infinito de possibilidades, uma enorme onda de amores e tramas vindo até a praia da imaginação a cada segundo, pegue uma dessas ondas e surfe alto e mergulhe profundo, se permita acreditar em tudo e acredite mesmo em tudo, por que é assim que as melhores estórias são feitas, elas tem que ser totalmente reais pra você, você tem que sonhar, se emocionar, você tem que chegar ao ponto de encher os olhos de lágrimas quando aquele personagem morre ou quando aquele outro diz “te amo”. Você tem que permitir que cada um dos seus personagens, cada um dos universos que você cria sejam parte de você e de seu dia a dia, eles às vezes vão ser mais reais que sua vida cotidiana, muitas vezes você vai se pegar pedindo conselho pro herói que você criou ou pensando se o vilão está mesmo errado quando você vê alguma injustiça na TV. É isso que faz as estórias serem maravilhosas, elas se tornam reais quando elas se tornam acreditáveis pra quem escreve. Por isso sonhe, sonhe e realize muito. Mude o mundo em suas folhas de caderno, no seu word, notepad ou blog. Crie um mundo que você se maravilhe e você estará criando no mundo real um pouco mais de sonhos e esperança para aqueles que leem. Esse é o papel do escritor, dar sonhos as pessoas.

Você teve uma ideia pra uma estória, ela tem um clima bem sólido, os lugares são bem claros pra você, a aparência das ruas, das casas, até as sombras e a claridade que passa pelas frestas das portas você pode dizer com exatidão como são, mas e os personagens? Por alguma razão eles não parecem se encaixar ali, e isso pode estragar tudo.

Bom, só pra que você tenha uma ideia de como um personagem tem que se parecer com a sua estória, imagine o mundo de Senhor dos anéis, com suas montanhas, vales, cavernas, imagine o Frodo e todos os heróis seguindo sua jornada contra o poderoso e diabólico Munrá, o de vida eterna.

Consegue imaginar? Consegue, claro que consegue, e sim, seria uma merda.

Bom, vou dar algumas dicas que eu acabei adotando ao longo do tempo sobre construir personagens. Claro que nem sempre o que funciona pra um, funciona pra todos, mas pode ser um pequeno passo pra te ajudar no seu caminho.

* Saiba qual estória você vai contar. Pode parecer besteira, mas acontece, você cria um clima interessante, sombrio, perturbador, tem um cenário excelente na cabeça, mas não tem uma estória. Você cria a Raccon City cheia de zumbis, mas não sabe se é pra colocar um policial atras de uma cura ou um samurai vindo do espaço apenas pra cortar cabeças. Então, antes de mais nada, saiba qual estória você vai contar.

* Saiba qual o objetivo do seu personagem. Ele quer salvar alguém? Quer ficar rico, vencer uma corrida, se apaixonar? O que ele quer? Talvez ele não queira nada, mas a vida o force a tomar decisões. Você não precisa saber pra onde ele vai no final, mas pra onde ele quer ir agora.

* Como seu personagem se veste? Como ele anda, como ele fala, como ele olha? Uma boa dica é saber com quem seu personagem se parece. Ele é mais do tipo He-man ou mais do tipo Ace Ventura? Seu personagem mente? Seu personagem é capaz de trair, matar, roubar e gostar de calypso e tantas outras coisas horríveis?

* Algo que eu costumo fazer é criar situações, que nem sempre eu escrevo, só imagino algumas pequenas cenas onde o personagem é confrontado com fatos, revelações, mentiras e às vezes conflitos e gosto de usar isso como uma especie de formação da personalidade do personagem. Por que se ele for frio, tenho que ter certeza que ele sempre será frio, se for explosivo sempre explosivo, emotivo, mentiroso, ambicioso, etc… O importante é nunca fazer o personagem se contradizer em ações.

*Elabore algumas frases que ache que seria legal do personagem dizer, talvez até diálogos entre ele e outros personagens, às vezes é legal criar muitas frases e diálogos e deixar salvo e ir consultando, isso pode guiar você melhor na estória caso você se perca ou fique sem ideia se a estória acabar ficando maior do que você achou que ficaria.

Bom, por hora é isso. Espero que de alguma forma isso ajude você a criar um personagem melhor.

Psicopatas carismáticos. Como não amá-los?

Tenho um amigo que é ilustrador, um dia ele me parou na rua e disse “Você podia fazer um conto pra mim de Halloween?” eu disse “Tudo bem, mas quando é o Halloween mesmo?” – “depois de amanhã” ele disse. Embora não tivesse ideia nenhuma sobre o que escrever, cheguei em casa depois do trabalho, liguei o computador e escrevi um conto sobre uma mulher que descobre que não deve deixar a janela aberta a noite, não gostei muito do resultado, mas enviei por e-mail pra que ele visse o cenário e criasse algo enquanto eu melhorava o texto. Ele não respondeu o e-mail no dia seguinte, então no dia de Halloween ele me envia essa imagem e diz, obviamente sem ter lido meu e-mail ainda “eu fiz essa ilustração, acha que dá pra escrever algo?” Bom, eu já tinha feito algo, mas não tinha nada a ver com essa ilustração, pensei em adaptar, mas dai eu perderia uma estória que eu ainda podia evoluir, acabei escrevendo outro conto em cima dessa imagem. Eu ia deixar pra fazer em casa, mas eu chegaria tarde e provavelmente cansado pra escrever e já teria deixado de ser Halloween, que graça tem um conto de Halloween no dia seguinte ao Halloween? Nenhuma, é lógico. Então escrevi no trabalho mesmo, a principio o meu problema era com inserir essa cena em um conto, não sabia se seria no começo, no meio no fim. Na verdade eu não sabia nem começar, quem seriam os dois caras? Quem seria a pessoa que abre a porta? De quem seria a cabeça na sacola? Acabei pensando que seria melhor se houvesse uma ligação entre a dona da casa e o cara na sacola, mas ainda não tinha ideia sobre os de mascara, bom, ele podia ser ligado aos outros dois, uma estória de familia, isso me pareceu interessante, então escrevi. É uma estória curta, sobre ressentimentos, loucura e brigas familiares. É um pouco menos sombria do que eu queria, mas às vezes o tempo e o local não te permitem dar o seu melhor.

Ai embaixo você lê o conto completo.

-Aposto que você pensou que nunca mais fosse me ver, não é?- Disse Lucas terminando de amarrar Silvio a cadeira. –Anda rápido com isso. – Comentou Cristovão, enquanto vigiava a rua pela cortina entreaberta. Os carros da polícia rodavam lá fora fazendo a ronda de plantão, mas hoje seria difícil encontrar alguém, noite de halloween, muitos suspeitos na rua, era o dia perfeito para o plano deles.

-Então, achou que era só colocar seu irmãozinho caçula no manicômio e tudo na sua vida ia ficar melhor?-Dizia Lucas completamente alterado- Sabe o que eles fizeram comigo? Sabe? Lógico que não sabe, mas eu te mostro. –Em seguida pegou algumas coisas que trazia na bolsa, uma chave de fenda, serrote, arame farpado e um pote de vidro cheio de formigas vermelhas. Em seguida se pôs a organizar tudo na ordem que ia usar, Silvio estava amordaçado, seus gritos seriam apenas sussurros, seria uma noite agradável como há tempos não tinha. –Você sabe, Cristovão me ensinou muita coisa, ele sim é pinéu de verdade. – Disse apontando pro amigo enquanto girava o dedo ao redor da cabeça. –Eu não, eu apenas extravaso minha raiva às vezes, de uma maneira um pouco doentia é verdade, mas nada além disso.- Então foi até a janela, apontou pra uma casa do outro lado a rua e disse pra Cristovão – É aquela ali, ta vendo? A amarela. – Então pegou o rolo de arame e veio na direção de Silvio –Você sabe, ou você enlouquece  às vezes ou você acaba perdendo a cabeça de vez…

-Isso não vai caber ai- Disse Cristovão vendo o trabalho que Lucas estava tendo – Cabe sim… É só ajeitar direitinho, você vai ver a surpresa que ela vai ter quando ver isso. –Respondeu Lucas estudando como colocaria o volume na bolsa. Em seguida atravessaram a rua e foram em direção a casa amarela, havia uma placa na porta preparada para o dia de festa. –Seja bem vindo- Era o convite perfeito para os dois, bateram na porta, em pouco tempo a senhora abriu a porta já com os doces na mão,então Lucas disse –Doces ou travessuras- Abrindo a sacola e mostrando a cabeça de Silvio ali dentro. –Meu deus- disse a mulher, reconhecendo o que sobrou do filho mais velho, em seguida seu sangue gelou ao reconhecer a voz do filho mais novo dizendo – Hoje você vai MORRER de susto…